
Ver uma criança engasgar durante uma refeição costuma gerar preocupação em pais e cuidadores. Principalmente durante a introdução alimentar, quando novas texturas e formas de mastigar estão sendo aprendidas, é comum surgir a dúvida: até que ponto isso faz parte do desenvolvimento?
Um episódio isolado não significa necessariamente que exista uma alteração. Porém, quando a criança engasga com frequência, tosse repetidamente durante as refeições ou demonstra dificuldade para mastigar e engolir, é importante investigar.
Esses sinais podem estar relacionados à disfagia infantil, uma alteração no processo de deglutição que precisa ser adequadamente avaliada para garantir uma alimentação segura e eficiente.
Engasgos ocasionais são normais?
Durante o desenvolvimento das habilidades alimentares, especialmente na introdução de novas consistências, a criança ainda está aprendendo a controlar o alimento dentro da boca, mastigar e coordenar respiração e deglutição.
Por isso, algumas intercorrências podem acontecer. O que merece atenção é principalmente a frequência e a repetição.
Quando engasgos, tosse ou dificuldades aparecem constantemente, acontecem com diferentes alimentos ou começam a interferir nas refeições, não devem ser simplesmente considerados “normais da idade”.
Engasgo e reflexo de gag são a mesma coisa?
Não. Essa diferença é especialmente importante durante a introdução alimentar.
O reflexo de gag é um mecanismo de proteção do organismo e pode acontecer quando o alimento chega a determinada região da boca. A criança pode tossir, fazer movimentos com a língua ou tentar trazer o alimento novamente para a frente da boca.
Já o engasgo verdadeiro envolve uma obstrução da passagem do ar e pode representar uma situação de emergência.
Por isso, pais e cuidadores devem receber orientação adequada para reconhecer essas situações e oferecer alimentos com segurança.
O que é disfagia infantil?
A disfagia infantil é uma alteração que dificulta o transporte seguro e eficiente de alimentos, líquidos ou saliva da boca até o estômago.
Nem toda criança que apresenta dificuldade alimentar tem disfagia e nem todo engasgo significa que existe uma alteração da deglutição. O diagnóstico depende de avaliação profissional.
Quais sinais de dificuldade para engolir merecem atenção?
É importante observar se a criança apresenta repetidamente:
- tosse ou engasgos durante ou após as refeições;
- dificuldade para mastigar;
- refeições muito demoradas;
- dificuldade para movimentar ou organizar o alimento dentro da boca;
- escape de alimentos ou líquidos;
- recusa persistente de determinadas consistências;
- desconforto ou cansaço durante a alimentação;
- alterações respiratórias associadas às refeições.
Um sinal isolado não confirma disfagia. Entretanto, a recorrência ou associação de diferentes sinais merece investigação especializada.
Introdução alimentar também é desenvolvimento
A introdução alimentar não significa apenas conhecer novos sabores. É também uma fase importante para o desenvolvimento das funções orais.
Progressivamente, a criança aprende a morder, mastigar, movimentar o alimento dentro da boca e engolir diferentes consistências.
Por isso, dificuldades persistentes não devem ser automaticamente atribuídas a “frescura” ou falta de costume. É importante compreender por que aquela criança está encontrando dificuldade para comer.
A mastigação também merece atenção: alterações na movimentação da língua, na coordenação da musculatura orofacial ou no padrão mastigatório podem interferir na preparação do alimento para uma deglutição eficiente.
Por que investigar engasgos frequentes?
Quando existe uma alteração verdadeira da deglutição, não investigá-la pode trazer consequências.
Dependendo do quadro, podem ocorrer dificuldades nutricionais, desidratação, experiências negativas com a alimentação e complicações respiratórias quando alimentos ou líquidos atingem a via aérea.
Além disso, comer também é uma experiência social e afetiva. Quando todas as refeições se transformam em momentos de medo, tensão ou conflito, a criança e toda a família podem ser impactadas.
Quando procurar um fonoaudiólogo?
A avaliação fonoaudiológica deve ser considerada quando a criança apresenta engasgos ou tosse recorrentes durante a alimentação, dificuldades persistentes para mastigar ou engolir ou outros sinais que gerem dúvidas sobre a segurança das refeições.
O fonoaudiólogo com atuação nessa área avalia como acontece todo o processo alimentar, incluindo aspectos como:
- funcionamento das estruturas orofaciais;
- movimentação da língua;
- mastigação;
- coordenação da deglutição;
- consistências que oferecem maior dificuldade;
- sinais clínicos apresentados durante a alimentação.
Quando necessário, o acompanhamento pode ser realizado em conjunto com pediatra, nutricionista e outros profissionais.
Engasgos ocasionais podem acontecer durante o desenvolvimento das habilidades alimentares, mas engasgos frequentes não devem ser naturalizados.
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